Da janela de um prédio no centro de Aceldama, o pequeno Gil observava os periquitos que passavam em bando todas as manhãs fazendo um barulho ensurdecedor.
Ainda olhando os pássaros, ele me perguntou:
-Eu vou poder voar como eles?
Pondo a mão em seu ombro, lhe respondi:
-Cara, cê vai poder fazer tudo o que estiver a fim.
Ele então abraçou minha perna direita – era onde seu 1,10m de altura lhe permitia – e disse:
-Eu estou pronto. Pode me levar agora.
Carreguei o menino até sua cama e fechei seus olhos.
Minutos depois, sua mãe entrou no quarto para acordá-lo e percebeu que era impossível. Então ela chorou.
A parada cardíaca de Gil foi algo inesperado para seus pais. Não era comum a morte de crianças por aquele motivo. Mas, pelo visto, não era impossível.
Naquele dia, eu guiei o pequeno Gil até o portão dourado e, vendo a beleza de seu novo lar, ele pensou nas palavras que eu dissera, “Cara, cê vai poder fazer tudo o que estiver a fim”.
Duas semanas depois, o quarto de Gil estava vazio. Seus pais estavam se mudando para um lugar menor. Sua mãe resolveu entrar no quarto só mais uma vez. Ao parar na janela para ver a revoada dos periquitos, talvez tenha visto seu filho voando entre eles.
FIM
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