20 Abril 2011

A REVOADA DOS PERIQUITOS

Da janela de um prédio no centro de Aceldama, o pequeno Gil observava os periquitos que passavam em bando todas as manhãs fazendo um barulho ensurdecedor.

Ainda olhando os pássaros, ele me perguntou:

-Eu vou poder voar como eles?

Pondo a mão em seu ombro, lhe respondi:

-Cara, cê vai poder fazer tudo o que estiver a fim.

Ele então abraçou minha perna direita – era onde seu 1,10m de altura lhe permitia – e disse:

-Eu estou pronto. Pode me levar agora.

Carreguei o menino até sua cama e fechei seus olhos.

Minutos depois, sua mãe entrou no quarto para acordá-lo e percebeu que era impossível. Então ela chorou.

A parada cardíaca de Gil foi algo inesperado para seus pais. Não era comum a morte de crianças por aquele motivo. Mas, pelo visto, não era impossível.

Naquele dia, eu guiei o pequeno Gil até o portão dourado e, vendo a beleza de seu novo lar, ele pensou nas palavras que eu dissera, “Cara, cê vai poder fazer tudo o que estiver a fim”.

Duas semanas depois, o quarto de Gil estava vazio. Seus pais estavam se mudando para um lugar menor. Sua mãe resolveu entrar no quarto só mais uma vez. Ao parar na janela para ver a revoada dos periquitos, talvez tenha visto seu filho voando entre eles.



FIM

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