09 Novembro 2009

Feira do Livro

Não deixe de adquirir a sua. Estamos no estande dos escritores paraenses.

01 Setembro 2009

11 Agosto 2009

O Gato na Janela

Na janela do quinto andar daquele velho prédio sempre era possível ver um gato cinza e estrábico. Todos os dias, às oito horas da manhã, ele sentava-se no parapeito da janela e ficava observando a rua. As oito e meia, Keilla, sua dona, o chamava para lhe dar de comer. Moe, como ela o batizara, descia as pressas e corria até a cozinha. Keilla era uma moça magra de pele clara, quase albina. Andava em seu apartamento usando apenas uma calcinha e uma camiseta. Morava sozinha desde os dezessete anos. Fugiu da casa dos pais depois de ter sido violentada pelo próprio genitor. Desde então, Moe, o gato estrábico, tinha sido a sua única companhia. Todas as noites, após o jantar, Keilla assistia ao seu programa preferido na tevê a cabo. Uma comedia mais antiga do que a tevê a cores. Era quando o gato cinza podia gozar do conforto do colo da dona. A Vida de Keilla era simples. O que recebia pelas aulas que dava no colégio público era o bastante para pagar suas contas. Seus dias eram todos iguais. Nos fins de semana acordava mais tarde e lia romances até a hora de dormir de novo. Os noticiários diziam que a violência na cidade estava cada vez maior, mas ela se conformava em estar pelo menos viva... até “aquele” dia, o dia em que um passarinho pousou na janela de Keilla exatamente às oito horas da manhã. Às oito e meia, Keilla chamou seu gato e, pela primeira vez desde que aprendeu seu nome, ele não apareceu correndo. Keilla foi à janela mas ele não estava lá. Moe havia descido cinco andares pelo lado de fora do prédio e, estava deitado na calçada, atraindo os olhares de pedestres comovidos. Olhando para Moe, com os olhos cheios de lágrimas, Keilla me perguntou: -Por que fez isso? Eu, de pé no parapeito da janela, com meu terno negro, acariciando o pequeno bípede emplumado, lhe respondi: -Desculpe-me, é a sua hora. -Eu entendo – disse Keilla ao subir também no parapeito da janela – É o seu serviço. Mas, pode me dizer para onde eu vou? E eu lhe disse: -Só há um lugar para aonde vão as almas dos suicidas e, este lugar não é o Céu. Naquele momento, Keilla resolveu que preferia esperar mais alguns anos para, talvez, ter direito ao seu lugar ao lado de Deus. Estava preste a descer do parapeito quando o súbito vôo do passaro que eu segurava a assustou e a fez perder o equilíbrio. A gravidade poupou-lhe da longa espera. Hoje, aqueles que são dignos de ver o rosto de Deus, se passarem numa tarde de domingo pelo trapiche que fica cem metros ao leste da Árvore da Vida Eterna, poderão ver Moe e sua dona apreciando o por do sol.